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Notícias

A dor do vínculo afetivo: como a fase de reconciliação fortalece a permanência?

Hana Korisawa
abril 25, 2023 9 Min de leitura
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Taiza Tosatt Eleoterio
Taiza Tosatt Eleoterio
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Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação no campo das relações familiares e da saúde emocional, integra um campo de conhecimento que há décadas se dedica a compreender fenômenos que desafiam explicações lineares. O ciclo da violência doméstica é um deles. Trata-se de uma dinâmica marcada por fases que se sucedem de forma previsível, mas que, por isso mesmo, criam armadilhas difíceis de identificar por quem está dentro delas. Entender como esse ciclo se estrutura e por que a ruptura encontra tantos obstáculos é uma condição fundamental para que o tema seja tratado com a profundidade que merece.

Contents
Como a esperança de mudança influencia a permanência em um ciclo de violência? Como o isolamento social influencia a manutenção de vínculos em relacionamentos abusivos?A importância de redes de apoio para mulheres em situação de violência Romper o silêncio: a necessidade de repensar o julgamento das mulheres em situação de abuso 

Como a esperança de mudança influencia a permanência em um ciclo de violência? 

A expressão “ciclo da violência” foi sistematizada a partir de estudos realizados ainda nas décadas de 1970 e 1980, e desde então tem sido amplamente utilizada para descrever a dinâmica repetitiva observada em muitos relacionamentos abusivos. O ciclo costuma incluir uma fase de acúmulo de tensão, em que a atmosfera do relacionamento se torna pesada e previsível; uma fase de explosão, marcada pelo episódio de violência; e uma fase de reconciliação, frequentemente chamada de “lua de mel”, em que o comportamento do agressor muda de forma significativa, com demonstrações de afeto, arrependimento e promessas de mudança.

É exatamente essa última fase que torna o ciclo tão difícil de interromper. A alternância entre violência e afeto não é acidental. Ela cria um padrão relacional em que a esperança de que o relacionamento melhore é continuamente reativada, o que fortalece o vínculo emocional com o parceiro abusivo de maneiras que muitas vezes são incompreensíveis para quem observa de fora.

Conforme analisa Taiza Tosatt Eleoterio, o vínculo formado em um relacionamento abusivo não é menos real pelo fato de ser prejudicial. A afetividade construída nos momentos de reconciliação tem peso emocional genuíno, e é sobre essa base que a permanência frequentemente se sustenta. Desconsiderar essa dimensão é um dos principais equívocos cometidos por quem tenta compreender por que as vítimas não “simplesmente saem”.

A repetição do ciclo, ao longo do tempo, tende a se intensificar. As fases de reconciliação costumam se tornar mais curtas, os episódios de violência mais frequentes e a capacidade da vítima de avaliar a situação vai sendo progressivamente comprometida pela erosão da autoestima e pelo isolamento.

Como o isolamento social influencia a manutenção de vínculos em relacionamentos abusivos?

Taiza Tosatt Eleoterio elucida que a permanência em um relacionamento marcado pelo ciclo da violência doméstica raramente decorre de uma única razão. Há um conjunto de fatores emocionais que se sobrepõem e que tornam a decisão de sair muito mais complexa do que pode parecer a observadores externos.

A dependência emocional ocupa um lugar central nesse conjunto. Ao longo do relacionamento, o parceiro abusivo tende a tornar-se a principal referência afetiva da vítima, seja porque o isolamento progressivo afastou outras pessoas, seja porque os próprios padrões emocionais da vítima a predispõem a vínculos de alta intensidade. Sair significa, nesses casos, perder não apenas o parceiro, mas a principal estrutura de referência emocional disponível.

O medo de represálias também não pode ser subestimado. Estatísticas sobre violência doméstica indicam, de forma consistente, que o período imediatamente após a separação é frequentemente o mais perigoso para as mulheres em situação de abuso. Esse dado, mesmo quando não é explicitamente conhecido pela vítima, manifesta-se como um temor difuso, mas legítimo, de que sair possa ser mais arriscado do que permanecer.

De acordo com a avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, a culpa também desempenha um papel relevante nesse processo. Muitas mulheres em relacionamentos abusivos carregam a crença de que são responsáveis pelo comportamento do parceiro ou de que poderiam fazer algo diferente para evitar os episódios de violência. Essa crença, que frequentemente é alimentada pelo próprio agressor, funciona como um obstáculo adicional à tomada de consciência e à decisão de buscar ajuda.

A importância de redes de apoio para mulheres em situação de violência 

Compreender o ciclo da violência doméstica exige também uma leitura sobre o contexto social e cultural em que ele ocorre. Relacionamentos abusivos não existem no vácuo. Eles se inserem em estruturas que, historicamente, atribuíram à mulher a responsabilidade pela preservação da família e pelo sucesso dos vínculos afetivos. Taiza Tosatt Eleoterio informa que essas narrativas, ainda que progressivamente questionadas, continuam a exercer influência real sobre a forma como muitas mulheres interpretam seus relacionamentos e suas obrigações dentro deles.

A vergonha social é um fator que merece atenção particular. O medo de ser julgada por familiares, amigos e comunidade, ou de não ser acreditada quando decidir contar o que viveu, pode ser tão paralisante quanto o medo físico. Em muitos contextos, a violência doméstica ainda é tratada como um assunto privado, o que reforça o silêncio e o isolamento das vítimas.

Conforme pondera Taiza Tosatt Eleoterio, o acolhimento social e comunitário é um dos fatores que mais influencia a capacidade de uma mulher de identificar sua situação e dar os primeiros passos em direção à mudança. A existência de redes de apoio que ofereçam escuta sem julgamento pode fazer diferença concreta em um momento em que a capacidade de confiar no próprio julgamento já foi profundamente afetada.

A dependência financeira, por sua vez, representa um obstáculo prático que não pode ser ignorado. Em contextos em que o parceiro controla os recursos econômicos, a saída do relacionamento pode significar uma ameaça real à sobrevivência material da mulher e de seus filhos. A ausência de políticas públicas eficazes e de recursos acessíveis para mulheres em situação de violência agrava esse cenário de forma significativa.

Romper o silêncio: a necessidade de repensar o julgamento das mulheres em situação de abuso 

Uma das armadilhas mais comuns na compreensão pública sobre a violência doméstica é tratar o rompimento do abuso como um evento pontual, uma decisão tomada em um momento específico e seguida de uma saída definitiva. A realidade observada na prática clínica e nos estudos sobre o tema é consideravelmente mais complexa.

O processo de rompimento costuma ser não linear. Mulheres em situação de abuso frequentemente tentam sair mais de uma vez antes de conseguir fazê-lo de forma definitiva, e cada tentativa pode ser interrompida por uma combinação dos fatores já mencionados. Tratar esses retornos como falhas ou como sinais de fraqueza é um equívoco que contribui para o julgamento das vítimas e para o agravamento de sua situação.

Segundo a análise de Taiza Tosatt Eleoterio, o processo de saída de um relacionamento abusivo envolve, muitas vezes, uma reorganização profunda da percepção de si mesma, dos próprios direitos e das próprias possibilidades. Esse processo tem seu próprio tempo e demanda suporte contínuo, não apenas no momento da separação, mas ao longo de todo o período de reconstrução que se segue.

Compreender o ciclo da violência doméstica com profundidade é uma condição para que a sociedade, as famílias e as instituições possam oferecer respostas mais adequadas às mulheres que vivem nessas situações. O conhecimento, nesse campo, não é apenas informação. É também uma forma de cuidado.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

 

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