Guilherme Campos integra um setor que, nos últimos anos, passou a ocupar um espaço estratégico na forma como o Brasil organiza seu crescimento urbano: o dos loteamentos planejados. Dados do Secovi-SP indicam que somente o estado de São Paulo registrou a venda de 51,7 mil lotes em 2025, um avanço de 15% em relação ao ano anterior, enquanto praças como Cuiabá, Goiânia, Joinville e Maringá consolidam o interior e as capitais regionais como novos vetores desse tipo de desenvolvimento urbano.
O fenômeno não é isolado. Ele reflete uma transformação mais profunda na maneira como cidades médias e regiões metropolitanas emergentes lidam com a pressão por moradia, infraestrutura e qualidade de vida. Em um cenário de valorização acelerada de terrenos bem localizados nos grandes centros, os loteamentos planejados surgem como alternativa capaz de antecipar demanda e organizar o território antes que a ocupação aconteça de forma espontânea e desordenada.
Como as vozes da periferia estão moldando o debate urbano?
Guilherme Campos evidencia que, por muito tempo, loteamentos foram tratados como produto imobiliário de nicho, voltado a públicos específicos em busca de segurança e infraestrutura privada. Esse cenário mudou. O mercado de empreendimentos de desenvolvimento de loteamento planejado atravessa hoje um ciclo de expansão acelerada fora dos grandes centros tradicionais, com cidades como Cuiabá registrando faturamento recorde de R$ 5,7 bilhões em 2025, alta de quase 18% em relação ao ano anterior.
Esse movimento revela uma mudança de percepção sobre o papel desses empreendimentos. Eles deixaram de ser apenas uma opção de moradia e passaram a ser entendidos como instrumento de planejamento urbano, capazes de antecipar a infraestrutura que normalmente chega depois da ocupação, quando os custos de adequação já são significativamente mais altos. Ao integrar sistemas viários, redes de saneamento e áreas verdes desde a concepção do projeto, o loteamento planejado inverte a lógica histórica da urbanização brasileira, em que a infraestrutura corre atrás da ocupação.
Quais são os principais fatores que influenciam a nova demanda por imóveis em áreas interioranas?
Outro fator que explica a relevância crescente dos loteamentos planejados, observa Guilherme Campos, é o processo de interiorização que o Brasil vive nos últimos anos. Famílias e investidores têm buscado cidades secundárias e regiões do interior em razão do custo de vida mais baixo, da qualidade de vida percebida e da expectativa de valorização patrimonial. O interior de São Paulo, por exemplo, registrou alta de 26% nas vendas de imóveis novos no primeiro semestre de 2025, segundo dados da Abrainc, com crescimento simultâneo em lançamentos e Valor Geral de Vendas.
Esse deslocamento da demanda altera a geografia do mercado imobiliário brasileiro. Cidades que antes eram vistas como secundárias passam a competir por investimento e por moradores qualificados, e os loteamentos planejados se tornam o instrumento que viabiliza esse crescimento sem reproduzir os gargalos típicos da expansão urbana tradicional. A integração entre esses empreendimentos e a malha urbana existente, com atenção a equipamentos comunitários e diretrizes ambientais, passa a ser tratada como requisito, não como diferencial opcional.

Segurança jurídica como condição para o crescimento do setor
À medida que o volume de capital direcionado a loteamentos aumenta, cresce também a exigência por rigor técnico e jurídico.Guilherme Campos aponta que questões como registros antigos, sobreposição de áreas e ausência de averbações podem inviabilizar projetos inteiros ou gerar litígios prolongados, encarecendo operações e afastando investidores. A due diligence imobiliária, antes vista como etapa opcional, tornou-se condição obrigatória para qualquer empreendimento que pretenda atrair capital institucional.
Esse amadurecimento regulatório não é um obstáculo ao crescimento do setor, é, na prática, o que sustenta sua expansão de forma duradoura. Novos veículos de investimento vêm direcionando capital institucional para o segmento de loteamentos, em um processo de profissionalização da cadeia que exige transparência e conformidade legal como pré-requisitos. Regiões que combinam potencial de expansão urbana com segurança jurídica consolidada tendem a concentrar a maior parte desse capital nos próximos ciclos.
O que torna o loteamento planejado uma solução estrutural em vez de apenas comercial?
Guilherme Campos observa esse movimento sob uma ótica que vai além do desempenho de vendas: a de que o loteamento planejado representa uma resposta estrutural a um problema histórico do urbanismo brasileiro, que é a dissociação entre crescimento populacional e capacidade de planejamento. Quando bem concebidos, esses empreendimentos antecipam demandas de mobilidade, saneamento e convivência social que, em modelos tradicionais de ocupação, só são endereçadas depois que os problemas já se instalaram.
Esse raciocínio explica por que o setor tem atraído tanto a atenção de incorporadoras quanto de gestores públicos interessados em modelos de desenvolvimento mais ordenados. A viabilidade desses projetos depende de um equilíbrio delicado entre rentabilidade, conformidade regulatória e capacidade real de integração com o entorno urbano, um equilíbrio que tende a se tornar ainda mais relevante à medida que o setor se sofistica.
Loteamentos planejados e o desenho das cidades brasileiras do futuro
O crescimento do mercado de loteamentos planejados sinaliza uma mudança mais ampla na forma como o Brasil pensa sua expansão urbana. Em vez de tratar o planejamento como etapa posterior à ocupação, cidades médias e regiões emergentes começam a incorporar a lógica do loteamento estruturado como parte do próprio processo de crescimento. Esse modelo, ainda que concentrado hoje em estados como São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Paraná, tende a se espalhar para outras regiões à medida que a interiorização populacional e a valorização de terras avançam pelo país.
Para Guilherme Campos, o desafio dos próximos anos será garantir que esse crescimento mantenha o rigor técnico e jurídico que vem sustentando sua credibilidade até aqui. Loteamentos planejados não resolvem, isoladamente, todos os desafios da urbanização brasileira, mas representam um instrumento concreto para que cidades em expansão evitem repetir os erros de décadas de crescimento sem planejamento, construindo, desde já, a infraestrutura que sustentará sua população nas próximas gerações.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez